Um pássaro me contou...

Foi há algum tempo. A incerteza da data faz com que ninguém tenha certeza se foi real ou não passa de mera lenda.
Diz a história que os funcionários da Universidade estavam em greve. Daquelas paralizações periódicas que serviam somente para adiantar as férias.

Numa sala grande, como são as salas daquela faculdade, uma aula sem microfone é condição degradante. Análoga a maus tratos. Crime. O aparelho ficava numa gaveta vertical atrás da lousa, trancado com uma chave que apenas alguns funcionários possuíam. Num mero exercício de eliminação do ócio, alguns discentes resolveram usar suas respectivas chaves domiciliares para tentar abrir a mágica porta. Qual não foi a surpresa e lá estava: o sistema de som da sala disponível a eles. Com microfone e tudo. Duas semanas. Apenas uma aula daquela mística faculdade tinha aula com microfone. E apenas naquele período.


Quando tudo parecia estar resolvido. Quando a arbitrariedade dos militantes parecia estar devidamente superada. A segunda surpresa. Por algum motivo qualquer, numa manhã fria, a porta aberta não revelou o valoroso microfone. Há quem diga que algum funcionário descobriu a ação e, por represália, tomou o microfone do lugar. Naquele dia houve aula. Professores gritando para cem pessoas. Cem pessoas gritando para os Professores: "não ouvimos, não ouvimos".


No dia seguinte, a terceira surpresa. No Salão Nobre daquela faculdade uma defesa de tese seria feita. Às sete e meia da manhã estava tudo pronto. Quatro microfones ligados esperando pelas vozes defensoras de teses mirabolantes e extravagantes. Quatro. Sem pensar duas vezes, um daqueles discentes que havia aberto a porta da lousa chamou os demais camaradas e uma ação furtiva histórica estava prestes a funcionar. Um a vigiar. Outros dois a desligar e retirar o aparelho. "Joga na bolsa". "Para o térreo. Precisamos disfarçar". Daquele dia em diante, as aulas voltaram a ter microfone. Apenas naquela sala havia aula com microfone. Naquele período.


Há quem diga que não passa de lenda. Talvez realmente seja. Ninguém sabe quem foi, quando foi... Se foi. Existe quem se vangloria por, em tempos remotos, ter conseguido o propagador de voz contratando um chaveiro para violar a tranca. Entretanto, não chega perto da grandeza da ação daqueles três jovens. Alguns dizem que foi uma das atuações mais ousadas que aqueles livros empoeirados viram. Foi há algum tempo.

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